Reboco externo

Paredes de prontas, hora de começarmos os rebocos. Como estamos numa região que registra 1800mm de chuva por ano, com chuvas aliadas a ventos tanto de nordeste como de sul, decidimos que o reboco externo levaria 7% de cimento.

Juliano nunca havia trabalhado com um reboco de terra, com pouco cimento, e para provar a mão, fizemos uma parede teste. Jorge e eu haváamos trabalhado no canto do quarto, fazendo um cordwood, e neste canto, começamos o teste de reboco. Um lado é orientação Norte e o outro Leste- perfeitos para mostrar os problemas de muito sol num reboco natural.

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Colar um reboco às taliscas de madeira sempre é uma questão, a dica do construtor argentino Jorge Belanko, é sempre sujar a madeira, e também pregar arames ou telas que façam uma trama sobre a madeira. Assim, nossas paredes, na parte externa, levam uma tela de pinteiro grampeadas às madeiras.

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Primeiro passo, grampear a tela, depois começar a rebocar. A massa que a construção convencional trabalha tem mais água, fica mais um mingau mole, fácil de manejar com a colher de pedreiro. E assim foi a primeira massa, ainda que Jorge insistisse em que deveria ter menos água.No primeiro momento ficou lindo mesmo! Nossa casa cor de chocolate!

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O que significa muita água quando se trabalha com terra ( argila e areira)? Significa que a argila está encharcada, e que quando perder esta água se contrairá, e rachaduras aparecerão… E foi o que aconteceu!

Entendendo que tudo é processo e aprendizagem, seguimos, Juliano colocando menos água e fazendo lindas paredes. Colocamos plástico fazendo sombra, para que as paredes secassem o mais lentamente possível.

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Ainda assim, com todos os cuidados, tivemos muitas trincas. A nossa terra é realmente muita argila e silt, nada de areia. Ainda que nosso traço fosse 1 de terra para 2 de areia , as trincas se fizeram presentes.

Esperamos a casa secar e secar muito bem… Ai fizemos uma natinha de terra com pouca areia fina peneirada e preenchemos cada trinca, como se fosse um rejunte de azulejos, aplicadas com uma sola de sandália Havaiana velha.

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A preocupação era não deixar trincas para que houvesse entrada de água e que nas geadas isso fosse um problema maior ainda…

Assim, nossa casa ficou linda, com uma decoração “craquelê”, toda particular. Se um dia nos cansarmos de tal textura é simples, basta fazer uma tinta com terra e pintar a casa!

Paredes de cordwood

Nossa história na construção da Cada da Montanha de Yvy Porã, fez com que nos apaixonássemos pela técnica do cordwood, principalmente com os garrafões como entrada de luz externa. Por isso decidimos trazer esta técnica para a casa da serra, em Waikayu, em dois detalhes, um no canto nordeste da casa, o outro na parede entre a sala e nosso quarto. Na foto abaixo o cordwood de Yvy Porã.

Fizemos primeiro o cantinho nordeste, duas paredinhas estreitas, entre o pilar do canto e as janelas. Para a junção destes diferentes materiais, madeira e terra, uma dica é encher a madeira de pregos velhos, que fazem com que a massa do cordwood se conecte  com a madeira do pilar e do marco da janela.WP_20141021_011

Nosso solo é muito argiloso, com um pouco de silt ( uma areia muito fininha, e que não deve ser considerada no cálculo de solos para construção ( 70% de areia e 30% de argila).  Assim, nosso traço para a parede foi:

1 balde de terra

1 balde de areia

1 balde de serragem molhada (deixada 24h de molho)

1/2 balde de cal

1/5 de balde de cimento.

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Pouca água, deixando a massa maleável, mas durinha, uma farofa úmida. Garrafas lavadas e secas, começamos a trabalhar, Jorge de um lado da parede, eu do outro, alinhando, dando o prumo e assentando massa e garrafas.

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Como esta massa tem cal e cimento, é necessário o uso de luvas, para não queimar as mãos. O alisado com as mãos e logo que a massa começa a puxar, alisamos com a colher de pedreiro, como mostra a foto acima.

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É uma técnica linda, fácil e bastante rápida, em uma hora o cantinho estava pronto. A  outra parede de cordwood foi a nossa árvore, entre a sala e nosso quarto. Mas esta é uma parede tão especial, que merecerá outra postagem.

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Paredes de pau-a-pique + palha leve

Com a estrutura e telhado feito, chegou a hora de fazermos as paredes. Esta era uma grande novidade e desafio para o Juliano e sua equipe, afinal, era paredes de barro!

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Estamos numa região de serra, com temperaturas que variam entre –4°C e 32°C no verão, assim, para o conforto térmico da casa é necessário um material que seja bom isolante. Nossa opção foi fazer um pau-a-pique duplo,  de 15cm de espessura, com barro e palha, quase uma palha leve.  Como esta etapa da obra chegou na primavera, as pastagens e culturas que poderiam nos fornecer palha, ainda não haviam crescido, ai, achar palha não estava muito fácil. Temos, a menos de 2km da casa, a madeireira Fazenda Nova, dos amigos Alemão e Pablo, que poderia nos oferecer serragem e maravalha, materiais que fazem a mesma função da palha, que é formar uma esponja com o barro, preenchendo as paredes de forma a isolar tanto calor, como frio.

WP_20141020_004 (mais…)

Cobrindo a casa: forro e telhas

Como mostramos na postagem anterior, a estrutura da casa estando pronta, as linhas do telhado e caibros fixados, chegou a hora de fechar a cobertura.

Nos cursos de Permacultura, falamos sempre dos  3 “C”s – Contexto, conceito, conteúdo… Explicando melhor:

– Contexto- é o que norteia suas ações e decisões… Onde está, quais os princípios éticos que vai seguir, quem você é? No caso do telhado: estamos no planalto catarinense, lugar com temperaturas frias no inverno e quentes no verão,  queremos uma obra ambientalmente coerente com o que a permacultura propõe.

– Conceito- os princípios mais detalhados, ou seja, o por que vais fazer algo de uma ou outra forma. Neste caso do telhado nossos conceitos são: segurança, conforto térmico, pouco impacto ambiental, possibilidade de se coletar água de chuva, funcional, duradouro, simples e bonito.

– Conteúdo- aqui entram as técnicas e materiais que são muitos, variados e fáceis de se achar na internet. Tipos de mantas isolantes e telhas. Ou mesmo a discussão sobre o teto verde.

A decisão sobre que telhado fazer e qual material usar, seguiu esta reflexão, e a nossa escolha foi:  forro de madeira grossa de 1 polegada, uma manta isolante de alumínio, ripas de madeira formando um colchão de ar entre esta manta e finalmente a tradicional telha de barro cozida- simples, sem esmalte nem outro produto.

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Para o forro usamos madeiras de 1 polegada, que na região de Cerrito, são usadas para assoalhos. Cada tábua foi tratada com óleo de linhaça antes de subir. Isto gerou muita piada por parte do Juliano e dos meninos da obra, diziam que era o piso do teto do Jorge e da Suzana… Até que no dia 13 de outubro de 2014, uma tempestade de granizo varreu a região, afetando alguns bairros de Cerrito e quebrando seriamente 60% dos telhados da cidade de Lages. A partir dai, passou a fazer sentido para todos um forro destas dimensões… O quesito SEGURANÇA foi amplamente reconhecido.

Sobre este forro colocamos ripas de 2 x 2 polegadas, seguindo os caibros e sobre elas, acompanhando todo o desenho do teto, uma manta térmica de alumínio, que garante o conforto térmico, e ainda faça com que, se uma telha se quebrar, ou água entrar numa chuva de vento, ela não passe para a madeira e não caia na casa.

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Sobre este telhado prateado, colocamos as ripas que sustentam as telhas de barro. Assim, entre a manta e as telhas, formou-se um pequeno colchão de ar, que possibilita a circulação de ar e um melhor isolamento térmico, tanto para o inverno, como para o verão, já que o ar não é um bom condutor de calor.

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Nosso telhado tem quatro água, sendo que para o leste, a cumeeira é estendida, formando uma mansarda com duas janelas- uma na sala e outra no quarto do casal. Estas janelas tem pelo menos duas funções: iluminar o meio destes cômodos, e no verão, como podem ser abertas, dar vazão à bolha de ar quente que ali se concentra (lembrando que o ar quente sobe!)…

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Cumeeira feita, hora de celebrar uma grande etapa concluida!  Com o telhado colocado, antes das chuvas de primavera e verão, possibilitamos que a obra seguisse nestas estações. Agora é tocar as paredes! Mas isto virá em outro post!

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Estrutura do telhado

Esta obra vai crescendo com sua estrutura de madeira, ela vai se tornando rígida à medida que vai sendo contraventada, isto é, vai formando triângulos, que são formas geométricas indeformáveis. Nossa casa de Waikayu foi subindo, com duas áreas bem firmes, construidas em tijolos maciços, que permitiram “ancorar” a construção. Agora começamos a estrutura do telhado.

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Nosso telhado é um telhado de 4 águas, em função dos ventos dominantes ( sul e nordeste). Na parte leste temos um  prolongamento da cumeeira formando uma janela, que trará mais luz para o meio da sala e para o nosso quarto e closed.

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A estrutura será de caibros, cobertos com um forro de 1 polegada de espessura. Sobre este uma manta aluminizada para garantir o isolamento térmo-hidráulico da casa, seguido por ripas de 2×2 polegadas (no sentido dos caibros), que fazem ainda uma camada de ar que ventila o telhado e evitam o acumulo de água em caso de infiltrações ou quebra de telhas. Finalmente o ripamento com as telhas de barro por cima. Nesta postagem mostraremos apenas a parte da estrutura de madeira do telhado. (mais…)

Estrutura em madeira

O projeto da casa mãe de Waikayu priorizou materiais locais,  como terra, pedra, e madeira. Com isso, optamos por uma casa de alicerece ciclópeo, estrutura de madeira e paredes de terra crua e palha. Um estilo da arquitetura vernácula em Santa Catarina, são as casas enxaimel, feitas principalmente nas áreas colonizadas por alemães, como mostra a foto abaixo. Assim, nosso projeto foi ganhando forma, texturas, design: seria uma casa enxaimel.

 

Tínhamos a possibilidade de comprar de um amigo, madeiras de área que seriam alagadas por uma das PCHs (pequena central hidrelétrica) que foram feitas na região de São José do Cerrito. Assim, decidimos comprar estas madeiras, araucárias, pinheiro bravo, bugreiros, etc.  Madeiras boas, que foram cortadas e desdobradas nas medidas que queríamos, para depois ficar estaleiradas secando por um ano. Agora com os alicerces prontos, passamos à estrutura.

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Os pilares centrais são grandes peças de brugreiro “in natura”, isto é, a árvore com todas as suas imperfeições,  uma madeira local forte e com um cerne duríssimo. Como estas madeiras ficaram no campo por muito tempo, algumas tiveram , apenas no brancal, alguns bichos, como mamangabas, formiguinhas, etc.

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Levantada na casa, elas ficaram umas semanas secando toda a umidade que ainda poderiam ter na superfície. Depois retiramos os brancais afetados, com um machadinho e também com escova de aço.  Também passamos um secador industrial, que sopra ar a 300°C, que limpava e eliminava qualquer bichinho que ainda estivesse ali.

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Nos encontros de paredes usamos peças roliças também de bugreiro. Já as demais peças de madeira são tábuas de 6 por 15cm, que será a largura das paredes. Assim como em Yvy Porã, os batentes de portas e janelas fazem parte das estruturas da casa e vão formando o enchaimel. Lembrando que cada uma destas madeiras roliças, é colocada sobre o alicerece que tem um ferro, que faz com que este pilar não possa se deslocar lateralmente.

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A cada vão de, no máximo 3m, são colocadas madeiras desta mesma bitola para contraventar, fazendo triângulos., que fazem com que a estrutura fique estável. Mas como ir levantando e estabilizando um “paliteiro”? Optamos por fazer as paredes dos banheiros e da cozinha em tijolos maciços, assim, a estrutura toda em madeira, teria , pelo menos duas áreas firmes, uma de cada lado da casa, para se apoiar, até que o telhado e os contraventos estivessem prontos.

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As paredes de tijolos tem também pilares estruturados em cada encontro de paredes. Estes pilares levam dentro um ferro que vem desde o alicerce e vai amarrado nos caibros do telhado.

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Amarrando todos os pilares vai uma cinta de madeira, e sobre esta os caibros do telhado, que terminam de estruturar a construção. Mas isto é conversa para outra postagem!

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Alicerces ciclópeos

Para iniciar nossa casa mãe do projeto Waikayu,  chamamos uma retro para retirar a primeira camada de terra. Esta camada, chamada horizonte A,  é rica em matéria orgânica, o que é ótimo para canteiros, mas péssimo para a construção.  Assim, veio a máquina e marcou a área da casa, fazendo um monte com a terra boa, que será usada, posteriormente nos cultivos da zona 1.

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Em seguida começamos os alicerces, verificando como era o solo, sua resistência, isto define a largura dos alicereces. Nosso solo é bastante sólido, terra dura, com casaclho por baixo, assim, nossos alicereces tem em alguns pontos 40cm de largura e em outros 30cm. Como nossas paredes serão de terra,  nossa opção foi pelo alicerce ciclópeo, que é simplesmente muita pedra, com uma massa de cimento e areia no meio. Este alicerece é muito sólido, aguentando o peso da estrutura e parede, e também impede a subida de umidade.

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